domingo, 1 de janeiro de 2023

2022 AS PRINCIPAIS FIGURAS E ACONTECIMENTOS


Chega a ser comovente, à falta de outra palavra que não quero usar logo a abrir o ano, a nossa pacatez perante o que se passa à nossa volta. Disciplinados na pandemia, votámos uma maioria absoluta para estarmos politicamente mais calmos, julgamentos de figuras públicas foram transferidos para a praça pública, perante uma justiça cara e desacreditada, olhamos as desgraças sociais cíclicas e tão previsíveis como incêndios e cheias, gripes com urgências esgotadas, assistimos ao constante aumento especulativo dos preços das coisas e de bens essenciais com a revolta contida de um manguito à Zé Povinho, ou com um altifalante chamado "rede social" mas no fundo, lá bem no fundo, acreditamos que vai ficar tudo bem e a fé é que nos salva, desde que não me aconteça a mim.

Acontecimentos do ano

SNS Serviço Nacional Saúde A frágil ministra Marta Temido, o sereno secretário de Estado Lacerda Sales e a controversa diretora-geral Graça Freitas, tiveram de enfrentar não apenas uma pandemia como dos mais poderosos lobbies, e não só nacional: os comerciantes e industriais da saúde. O SNS é uma afronta inadmissível para todos os que fazem da saúde, ou melhor, da falta dela, um chorudo negócio. Para estas figuras será o esquecimento a única forma de tratar o que puderam fazer e o que não foram capazes de ultrapassar. Mas, se tivessem a mais pequena sombra que fosse, no seu currículo ou nas suas vidas privadas, já teriam sido despidos em praça pública e abocanhados por uma ululante alcateia de neoliberais. E, muitos de nós cidadãos, rapidamente verificaríamos a maravilha da medicina privada, a eficácia das suas urgências e das suas especialidades, consultas e cirurgias, ainda que abrangendo só quem pudesse pagar e bem, ou tivesse um seguro com prémio pago a peso de ouro.


Mulheres do Irão, do Afeganistão, da ArábiaA indignação com a morte de Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos que morreu após ser detida pela Polícia  de Moralidade do Irão, supostamente por usar o seu hijab de forma inadequada, desencadeou protestos em todo o país que duram várias semanas com um saldo de centenas de mortos e feridos entre manifestantes que saem todos os dias para as ruas de Teerão e de outras cidades. 
Mulheres que não podem existir como seres humanos, humilhadas e tratadas como coisas inexistentes, que no Afeganistão vendem os seus filhos para sobreviver, as crianças forçadas ao casamento, porque os homens inventaram um Deus fanático e sanguinário que odeia mulheres. O fanatismo islâmico mata à vista dos cabelos das mulheres, do seu pescoço, do tornozelo, da inteligência. Esfacela a dignidade da mulher, pela cobardia dos homens perante as mulheres autênticas seitas de assassinos são, no entanto. os melhores aliados porque são eles que nos vendem petróleo para sustentar a hipocrisia e o encolher de ombros do Ocidente e dos Estados Unidos.

A pedofilia na Igreja Católica O assunto da pedofilia é sério sob qualquer ponto de vista e as religiões praticam continuadamente e há séculos, crimes dos mais variados, sem punição. A pedofilia não é, certamente, uma exclusividade da Igreja Católica, mas apenas lhe resta a seu favor em relação a todas as outras, o facto de que no século XXI se expõe perante os seus fiéis e não só. Os deuses são feitos à imagem dos homens e não o contrário, justamente porque são os homens que sentem a necessidade de inventar os deuses. Talvez por isso, a justiça dos deuses tal como a justiça dos homens é posta constantemente em causa e cada vez mais, a humanidade anda em busca de novas espiritualidades e de outras crenças edificadas ou não, nas que já existem.
No Islão a pedofilia é oficial e abençoada pelas leis do profeta, com o casamento de meninas com adultos, alguns de mais idade que os próprios pais da nubente.


A invasão russa da Ucrânia Materializou a ruptura entre a Europa e a Rússia e, por arrastamento, de boa parte do mundo que não aceita os Estados Unidos como "gestor" universal nem o seu braço armado, a NATO como putativo defensor da Paz e da segurança.. Entrámos numa nova era e a Europa passou para a categoria dos servidores, impotente perante uma guerra que se desenrola num território colado às suas fronteiras mais a Leste, perdendo-se nos efeitos "boomerang" das sanções a Putin e aos oligarcas russos que entretanto vão caindo com tordos se, por um mero acaso, acharem que podem viver à margem das diatribes do seu chefe.
Qual será a diferença entre um oligarca russo e um multimilionário norte americano? 
No meio desta turbulência política e de crise económica e social, o grande vencedor parece ser Xi Jiping, o presidente da China que, quase sem se mexer, mas sem perder o seu gentil sorriso mesmo que te prepare a maior das sacanices, se tornou o homem mais poderoso do mundo em pouco mais de três décadas, líder do novo polo mundial que inclui a Rússia e a Índia, os restantes Brics, caso do Brasil de Bolsonaro e de alguns dos principais países africanos. Um polo com 3 potências nucleares, determinante no Pacífico e no Índico, criador duma nova moeda de troca que integra a nação com maior superfície (Rússia) e as duas mais populosas, (Índia e China) que, em breve, determinará a acção política de potências como o Japão e a Coreia.
Do lado Europeu, resta a sinfonia imperfeita, "performance" do trio Ursula Van Der Leyen, Borrel e Mitchel, que acompanhados pela orquestra da NATO já destroçaram a Europa a toques desafinados e de finados.

A Nord Stream, empresa de transporte de gás cujos pipelines foram sabotados por é uma rede de gasodutos subaquáticos no Mar Báltico que devia fornecer gás para o sistema europeu a partir das reservas de gás da Rússia. 
O consórcio de gasodutos Nord Stream AG com sede em Zug, na Suíça, é uma joint venture multinacional em que a russa Gazprom detinha uma participação de 51%, as empresas alemãs BASF e PEG Infrastruktur AG detinham 15,5% cada, as empresas de gás holandesa Gasunie e francesa Engie 9% cada. Os 5 acionistas principais detinham 30% do capital de 7,4 mil milhões de euros e 70% tinha sido colocados no mercado de capitais. Um investimento a longo prazo com dividendos assegurados. De repente tudo explodiu. 
A 27 de Setembro de 2022 várias explosões subaquáticas danificaram o gasoduto de forma dificilmente reparável. Nenhum autor desta sofisticada sabotagem se assumiu. Mas os dois gasodutos de NordStream com capacidade para fornecer 27,5 mil milhões de metros cúbicos de gás por ano, isto é 12% das importações de gás da União Europeia foram por água abaixo (ou acima) e os desiludidos que esperavam ganhar uns milhões mantêm um silêncio cobarde.


Perplexidades do ano

As inadiáveis consequências das alterações climáticas afinal podem esperar em pousio até ao final da guerra na Ucrânia? 

Os carros elétricos poluem mais do que os de motores convencionais? O que fazer com as baterias usadas? Para quando aviões elétricos, paquetes de cruzeiro elétricos? Para quando uma guerra ecológica com foguetões intercontinentais elétricos?

Israel tem bombas atómicas no Médio Oriente, mas o perigo são as que o Irão não tem? Os palestinianos são seres humanos, ou alvos para os israelitas treinarem?

Os arquitectos e fabricantes de louça sanitária estão em apuros para definirem o lay out das novas casas de banho para o mais recente género da humanidade ocidental, o LGBT. Há ativistas de causas que propõem uma consulta ao livro do Génesis para descobrir como se aliviavam o Adão e a Eva! Para se descobrir se as calças devem ter braguilha e se as saias devem ter presilhas de sustentação. Onde se aliviam os LGBT? Antevejo o grande tema mobilizador das hostes educadas do Ocidente em 2023.

Mark Sargent que anda pelo mundo a garantir q
ue a Terra é plana. “A ciência diz que estamos numa pequena rocha coberta com um pouco de água e fumo, voando pelo espaço em diversas direcções e velocidades. Mas não, tudo o que vemos é parecido com o cenário de filme . “Tudo o que se vê em cima de nós, como as estrelas, os planetas, o Sol e a Lua, são apenas imagens no tecto”.

O milagre do Ano foi aparecimento de um saco com milhares de euros na casa de uma eurodeputada grega que louvava o regime do Qatar! A miraculada chama-se Eva Kaili e o milagre produziu-se num espaço de paz ecuménica entre o islamismo petrolífero e o cristianismo ortodoxo grego. A dita abençoada é também missionária das criptomoedas.

Por cá, também houve uma abençoada de nome Alexandra leitão que saltou de paraquedas de um avião da transportadora aérea estatizada e empreendeu um voo livre de quinhentos mil euros antes de abrir o dito e pousar tranquilamente numa outra empresa pública, antes mesmo de num acrobático salto, entrar ainda pelo governo adentro e ficando com a pasta do Tesouro embora por pouco tempo.





quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

"Melhor ser Rainha por um dia que duquesa toda a vida"

 




A frase está em todos os livros de História Pátria deve-se a D. Luísa de Gusmão, esposa de D. João de Bragança que na véspera do dia da independência tinha armado cavaleiros os seus filhos e perante os demais fidalgos que se reuniram com os duques de Bragança na residência de D. Antão Vaz de Almada que perante a hesitação do o Duque de Bragança, em dar a ordem para a revolta, decidiu ser ela a encabeçar essa ordem.
Corajosas palavras de Luísa María Francisca de Guzmán y Sandoval que ficará para a História D. LUÍSA DE GUSMÃO, espanhola por nascimento, casada com D. JOÃO, Duque de Bragança, o IV e o primeiro da dinastia de Bragança a quem foi dado o cognome de 'O Restaurador' depois de proclamado Rei de Portugal. naquela tarde do primeiro dia de Dezembro do Ano da Graça de MDCXL.
Durante 60 anos, Portugal constou como uma 'província espanhola'
A esta hora, passados que são 382 anos, Os Conjurados, assim designados pela jura solidária de vitória ou morte, tinham invadido o Paço, aproveitando a ausência da Duquesa de Mântua, regente nomeada pelo rei Filipe III de Portugal, IV de Espanha, dominaram a Guarda Espanhola e depois de uma série de buscas por corredores e salões do palácio acabaram por descobrir Miguel de Vasconcelos, secretário da Duquesa e traidor odiado pelo povo, escondido num armário do aposento e depois de breve luta, um tiro de mosquete no peito derrubou-o e já agonizante foi defenestrado para a praça para o meio do povo que se juntara em agitação.
Estava consumado o golpe que nos arrastaria para mais 28 anos de guerra com Espanha que acabou com vitória portuguesa selada no Tratado de Paz de 1668 assinado em Lisboa e mediado por Carlos II de Inglaterra, entre Carlos II de Espanha e João VI de Portugal, que ficou conhecido por Tratado de Paz Perpétua.

DIA DA INDEPENDÊNCIA

 

Hoje, logo pela manhã, Peguei numa bandeira, mais ou menos branca, mesmo não sendo monárquico, empunhei uma bengala do meu bisavô ( à falta de arma melhor invadi a "Casa Grande" aqui da Ilha, sem encontrar qualquer resistência, cheguei à varanda do primeiro andar, cujas portas abri de par em par e só então realizei que não havia nenhum traidor, escondido nem no sótão, nem nos roupeiros, para defenestrar.... ainda bem!
Sinal de que este maravilhoso "jardim à beira serra plantado" é independente! Uma repórter fixou o momento histórico.

A NOITE DOS CONJURADOS

 Ao longe, ouviram-se os sinos da igreja da Misericórdia. A noite caíra há muito sobre a cidade. Lisboa era uma cidade adormecida.

Mas não morta. Vultos colados à suas próprias sombras, capas negras traçadas junto aos olhos, pareciam todos iguais, capas que se deslocavam sozinhas, encimadas por chapéus de abas largas, alguns com plumas. Eram uns vinte, talvez mais, espaçados, rápidos, parecendo todos com o mesmo destino. O palácio de D. Antão de Almada, Conde de Avranches e Governador da Cidade.
Pouco antes, pelo pátio maior, já tinham entrado umas seis ou sete carruagens e, quem estivesse no pátio, teria visto que a criadagem e moços de cavalariça andavam numa fona a tratar dos cavalos e a guiar cocheiros e trintanários para as caves enquanto mais uns vinte vultos saíam rapidamente para o interior da ala esquerda, a da biblioteca, do edifício.
A última reunião d'Os Conjurados iria começar dentro de poucos momentos e seria decisiva pois de manhã estava marcado assalto ao Paço, já que Alda Boaventura, a criada da Duquesa de Mântua que há muito espiava a favor dos conjurados, avisara João Pinto Ribeiro de que a Duquesa iria partir, numa urgência, para Madrid e o Paço ficava entregue apenas Miguel de Vasconcelos, o secretário e uma guarda espanhola de uns quinze homens armados.
A reunião decorreu com entusiasmo patriótico e vivas a rei D. João, pois eram esses os objectivos: tomar o Paço e aclamar o duque de Bragança, como el Rei D. João, o Quarto!
Mas a reunião revestia-se de grande importância não apenas pelos pontos acima enunciados mas também porque seria designado quem na manhã seguinte se dirigiria ao Paço para iniciar a revolta, começando por passar os guardas espanhóis pelas armas, caso resistissem e apanhar o traidor Miguel de Vasconcelos que seria de imediato encarcerado para posterior julgamento.
Esta foi a lista dos onze escolhidos:
D. AFONSO de MENEZES (Mestre de Sala de Armas); D. ÁLVARO da CÂMARA (General do Minho); D. AYRES de SALDANHA (Alcaide de Soure; D. ANDRÉ de ALMADA (Comendador do Terço de Vimioso); D. ANTÓNIO de ALCÁÇOVA (Alcaide-Mor de Campo Maior); D. ANTÓNIO ÁLVARES da CUNHA (Senhor de Tábua); D. ANTÓNIO da COSTA (Comendador do Terço na Ordem de Cristo ); D. ÁLVARO LUIZ de MENEZES (Conde de Cantanhede e Marquês de Marialva); D. THOMAZ de MASCARENHAS (Conde de Castelo Novo); PEDRO de MENDONÇA e FURTADO (Alcaide-mor de Vila Real) e RODRIGO de FIGUEIREDO e ALARCÃO (Senhor da Ota).
O plano era simples pois não havia lugar a grandes tardanças nem elaborações. Tudo começaria com a chegada ao Paço de três dos Conjurados, no caso, D. Thomaz, D. António da Costa e D. Afonso de Menezes que por serem mais conhecidos e terem entrada livre nas suas audiências com a duquesa de Mântua, poderiam mais facilmente passar pela guarda e assim que estivessem no átrio e dominados os guardas das portas traseiras, vindos então da rua da Ribeira das naus, os restantes entrariam e rapidamente teriam de se espalhar pelos corredores e dependências do Paço e onde se encontrasse a guarda que teria de ser dominada, enquanto os três tentariam encontrar Miguel de Vasconcelos para que se rendesse.
Pelas ruas, os restantes conjurados convocariam o povo de Lisboa para acorrerem ao Paço pois havia uma revolta e queriam matar D. Antão de Almada, figura querida do povo de Lisboa. Noticia que sendo, obviamente, falsa se destinava a lançar a confusão e fazer com que parte da guarda tentasse suster a populaça, dividindo as suas forças. Ninguém terá dormido muito bem nessa madrugada de primeiro de Dezembro de 1640. O amanhecer se ria único!

(fontes: Os Conjurados, agenda pessoal e wikiped)

terça-feira, 1 de novembro de 2022

QUANDO A TERRA TREMEU, TREMEU E TREMEU...

 O meu nome era Ismael Ramires, sapateiro com uma loja na rua dos Mercadores, quando se descia para a Ribeira das Naus, mais ou menos a meio caminho. Vivia por cima da loja, com a minha esposa Beatriz, mãe das minhas filhas amadas Isabel e Mafalda e do meu filho Afonso, que partira havia seis meses na nau Glória, rumo a terras de Vera Cruz. Enviara carta, datada de há duas semanas, que estava de boa saúde e partiria para o Sertão em caravana em demanda de ouro que, segundo se dizia, era de abundância por aquelas paragens. Éramos felizes e estávamos num bom momento das nossas vidas. Em breve seria o casamento de Isabel. com Rodrigo que servia na Guarda Real, tendo conhecido Isabel que era, por sua vez, aia da princesa Maria. Tinha dois aprendizes na arte que também faziam as entregas dos arranjos. Uma vida próspera graças às encomendas de sapatos e botas para a Corte de El Rei D. José.

A terra começou a tremer pelas primeira horas da manhã quando a maior parte da população estava nas igrejas e cemitérios já que era dia de Todos os Santos e pela Santa Madre Igreja e pela Fé, dia de homenagear os que haviam partido.
Primeiro foi um ronco que fez estremecer os nossos corações, brotando debaixo de nós, debaixo do chão, de todo o chão, de todo o lado. Depois, tudo começou a abanar; as casas começaram a desabar, a desfazer-se, transformando-se em montes de pedras e de poeira, de madeiros quebrados, os moradores a correr nas ruas em pânico enquanto outros ficaram logo ali, nos escombros. O chão abria-se em fendas até ao inferno e as calçadas enrolavam-se como se de simples tapetes se tratasse. Para os lados da Sé rebentou incêndio que logo se propagou. com mais casas a arder como archotes, pela encosta até ao castelo, pelo caminho ardiam árvores e os animais atropelavam-se numa fuga descontrolada com as pessoas. Os céus fecharam-se num breu aterrador e por baixo dos nosso pés, o chão depois de uns momentos de quietude voltou a tremer e a provocar mais ruínas, mais incêndios. Mais pessoas e animais que desapareciam nas brechas abertas.
O incontido terror levou uma multidão para o Terreiro do Paço, porque se tratava de local arejado e amplo e havia soldados da Guarda Real que tentavam por alguma ordem e organizar algum tipo de socorro às vítimas. Pequenos grupos de homens e mulheres tentavam desesperadamente apagar focos de incêndio com baldes, panelas e outros utensílios que puderam encontrar enquanto muitos outros andavam a correr de um lado para o outro sem préstimo, apenas movidos pelo terror. Os incêndios por toda a cidade não pararam de aumentar com milhares de velas colocadas para iluminar santos e altares.
Foi então que um grande clamor ecoou no terreiro e logo centenas de pessoas se atropelaram numa corrida para as ruas que sobem para o castelo e para a colina do Carmo, por cima das próprias ruínas e dos desgraçados que caíam no pânico da fuga. enquanto outros num pavor extremo encontraram a morte ali junto ao rio.
Uma onda enorme tapando a visão do céu, vinda do lado da rio, trazendo barcos grandes e pequenos, pedras, restos de árvores e destroços sem nome, tudo arrasou, Mais alta que as casas, tudo abafou no fragor da pancada. A onda veio fazer ainda mais mortes e semeou ainda mais terror e depois de uns momentos, outra se seguiu; o rio saltou das margens depois de quase ter desaparecido e fez das ruas um mar de destroços.
Beatriz, a minha mulher desapareceu, o mesmo sucedeu à nossa Mafalda, Um dos meus ajudantes seria encontrado semanas mais tarde nos escombros da loja; do outro, nada se soube, mais. A minha filha Isabel sobreviveu uma vez que se encontrava com a família real em Caneças mas o noivo morreu quando a empena de um prédio na rua dos douradores ruiu no exacto momento em que ele se encontrava a tentar salvar um homem com uma criança ao seu colo.
Quanto a mim, dirigia-me para a Sé à missa das nove quando tudo começou. Tentei voltar para trás, já com o pânico instalado, mas fui atropelado por uma carruagem cujos cavalos se espantaram e o cocheiro caiu do seu lugar e ficou ferido, no meio da rua. O rodado traseiro passou-me sobre o peito e quebrou-me o esqueleto deixando-me sem respirar. Quis gritar, fazer um gesto qualquer mas ninguém ligou e a voz não me saiu da garganta. A poucos metros de mim, o cocheiro com a cabeça numa pasta de sangue tentava, em vão, aguentar-se de pé. Depois chegou a onda com os destroços acumulados. Chegou ás portas da Sé tapou-me para sempre a luz.
NOTA FINAL. Uma ficção na trágica manhã do primeiro dia de Novembro de 1755. Ismael Ramires nunca existiu mas criei a personagem para mais facilmente retratar os momentos de terror. Mais de 1/3 da população de Lisboa morreu ou desapareceu e um número incontável de feridos nem sequer tiveram lugar para ser assistidos pretende imaginar o relato de uma possível vítima de um dos terramotos seguido de maremoto dos mais violentos e mortíferos de toda a história...
"Enterrar os mortos e cuidar dos vivos!", a frase do então primeiro ministro do rei D. José I, Sebastião José de Carvalho e Melo, mais tarde Marquês de Pombal pelas acções valorosas que levaram à reconstrução da cidade com o traçado que ainda hoje a Baixa tem.