quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

SALAM' ALEIKUM

 


Salam'Aleikum, como sabemos, uma expressão árabe significa "a paz esteja entre vós", usa-se como saudação amistosa, acompanhado de um gesto de mãos juntas à frente do rosto e uma ligeira inclinação da cabeça. Depois de séculos de andar nas bocas não só dos árabes foi-se transformando tanto na escrita como na fonética e também quanto ao significado.
"Salamaleque" o termo aportuguesado no que deu a expressão original que adquiriu uma faceta de exagero gestual e cerimonioso e de algum exibicionismo. Diz-se da pessoa que "faz salamaleques" ou determinada postura que é "cheia de salamaleques".
Talvez, se fosse um árabe a abrir o dia aqui no face, abrisse assim!
Com salamaleque!
Quando comprei "on line", durante o confinamento de 2020, um livro sobre curiosidades da língua portuguesa não imaginava que houvesse tantos vocábulos importados de outras línguas e que se tornaram mais do que vulgares. Nem só a necessidade aguça o engenho, a curiosidade também.
E, recordo o professor de inglês do meu longínquo quinto ano do liceu, cujo nome não recordo, porque entre era sempre o "Teacher" - como os futebolistas chama "mister" ao treinador - um excelente comunicador e sempre transmitindo-nos conhecimentos que ajudassem a perceber as relações entre o inglês e o português.
Ligado ao termo com que se designa, na gíria, as travessas usadas para manter paralelos e fixos os dois carris dos caminhos de ferro que são as célebres "chulipas" ou "sulipas" está o inglês! Estranho? Talvez não.
E, contava a história. Como os caminhos de ferro foram introduzidos em Portugal, durante o reinado de D. Luís I - a linha Lisboa-Carregado - por ingleses, chegaram engenheiros e operários ingleses especializados aos quais se juntaram trabalhadores portugueses que ajudavam no trabalho de transporte e assentamento das linhas. E, então os ingleses sempre que lhes pediam as ditas "travessas" apontavam para os madeiros e com o gesto nomeavam "SLEEPERS" (dorminhoco, em inglês).
Sleeper para aqui, sleeper para ali, os trabalhadores baptizaram as ditas travessas e passaram a designá-las entre si, por "sulipa" ou "chulipa, o que até dava para dar um sotaque diferente ao termo.
Ora para o que me havia de dar. isto mais parece uma abertura cheia de salamaleques; devo ter dormido mal na chulipa...
Para não os maçar mais, hoje, volto noutro dia com mais coisas e loisas.
A propósito, sabem de onde vem esta expressão' Ahhhhhhhh, fica para a próxima... até mais logo!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

É A NOSSA VIDA


 Aqui há tempos li, já não sei onde, que amadurecemos com o passar dos (D)anos; achei graça com aquele "dê" agasalhado nos parêntesis e estrategicamente colocado antes da palavra "anos".

Na vida vamos, de facto, aprendendo mais com os danos que com os anos e é isso que nos dá a resiliência necessária para continuarmos e para não nos repetirmos nos mesmos erros.
Amadurecer sem envelhecer, uma arte caprichosa que poucos sabem levar até ao fim; amadurecer mas sempre vivos como se o futuro não tivesse aquele momento de previsível imprevisibilidade onde tudo acaba.
Sonho por realizar; arrependimento que não tem tempo para ser; um segredo que vai connosco; um amor que se guarda egoísta e único; uma paixão que ficou para sempre no nosso coração como se tivesse memória, o nosso coração...
Na vida, todos temos
um sonho inalcançável
um remorso irreversível
um momento imprevisível
um segredo inconfessável
um amor indivisível
uma paixão inesquecível.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

DOI-ME A VIDA, DOUTOR.

 

A frase proferida por um menino que escrevia versos quando o médico lhe perguntou do que se queixava.
"Dói-me a vida, doutor".
O conto de Mia Couto é a história de um menino triste levado ao médico pela mãe, por ordem do pai, quando começaram a aparecer pelos cantos da casa uns papeis com uns versos escrevinhados. Logo o pai asseverou excessos de cultura, más companhias, mariquices intelectuais.
Quando o médico lhe perguntou como fazia para amenizar a dor, ele respondeu sereno e com um sorriso triste que acordava a sonhar.
"De que vale ter voz se só me percebem quando estou calado? Reparem, então, só no que eu não digo!"
"Dói-me a vida, doutor..."

Anda por aí tanta gente a doer-lhe a vida de tantas maneiras; alguns nem sequer sabem queixar-se onde lhes dói, outros ignoram a dor e vão-se arrastando, sorriso triste, encolher de ombros cansados, perpétua convicção de sofrimento irreparável.
"Dói-me a vida, doutor..."
A chegada do novo ano, o vigésimo parecia trazer selo de garantia depois desse extraordinário feito que foi o abrir as portas do Natal? Descrentes, pessimistas azararam a imprudência. Como podia correr mal (lá estão eles só a pensar só no mal) Mas não! Eram apenas os realistas a falar...
Podem não saber sonhar azul ou cor de rosa mas sabem melhor quando a vida dói.
"Dói-me a vida, doutor.."
Hoje, estamos de novo fechados em casa.
Tentamos replicar os tempos de Março/Abril mas falta-nos já a força de então e sobretudo a novidade, a esperança "isto passa e vamos ficar todos bem!"
Até porque o cerco aperta em volta de cada um quando já é um familiar apanhado pela doença, o melhor amigo que se foi, aquele vizinho que nos dava bons dias todos os dias e que deixou de aparecer.
A vida está a doer-nos muito.
A uns muito mais que a outros, certamente. Mas as dores vão continuar ainda por muito tempo e já poucos se atrevem a recusar a evidência.
Um final de esperança que mantenha a capacidade de sonhar. Felizmente há luar!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

ESTADO DE EMERGÊNCIA PARA QUE TE QUERO (PARTE II)

 

Hoje, inevitavelmente, tenho de me referir à comunicação do senhor primeiro ministro sobre o novo estado de emergência que começa às 00H00 ou será que é às 24H00 de sexta feira? ou será que é às 00H00 de sexta feira ou às 24H00 de amanhã?
Bom! Isso agora não interessa nada!
O que interessa é que depois de tanta expectativa, de tanto "xarivari", de tanta consulta a sábios, a profetas, a partidos, a inteiros e a todos os mais não sei quantos que têm opinião, o senhor veio anunciar que
"A MONTANHA PARIU UM RATO!" ou terá sido uma rata?
Bom! Mas, isso agora também não interessa nada!
Vamos então ao que interessa!
Serviços públicos em atendimento só por marcação (já estavam);
tribunais abertos (já estavam);
escolas abertas (já estavam);
hipermercados, supermercados, lojas de conveniência; padarias; farmácias; restaurantes e cafés/pastelarias com serviços de "take away" (já estavam);
jogos de futebol sem público (já estavam);
malta a "passear" pelas ruas de carro porque vão levar/buscar os filhos/netos à escola (já estavam);
malta a "passear" pelas ruas porque vai comprar pão, vai comprar comida pró cão, vai comprar comida pró gato, vai buscar o almoço, vai buscar o jantar, vai à farmácia, vai ao hiper, vai ao super, vai tomar um café num copo de plástico à porta de um café, vai comprar o jornal, vai meter o euro milhões, vai despejar o lixo, vai passear o cão, vai passear o gato, vai passear o periquito, vai passear-se a si próprio (já estavam). e, agora também pode ir ao dentista (que não estava)! e à missa ou ao culto das seis, das sete ou das oito porque as diversas instituições religiosas se organizaram...(?)
produção industrial e construção civil ficam a funcionar (já estavam)
Teletrabalho para quem pode desempenhar essa função agora OBRIGATÓRIA(?) (já estava - agora acrescenta o obrigatório! quem é que fiscaliza?)
Então o que é que não está???????
Restaurantes e cafés sem take away (já quase não existem, à cause des mouches!);
Cabeleireiros, barbeiros, ginásios (já estavam com poucos clientes)
Comércio não essencial (lojas de trapinhos e sapatinhos)
Nos centros comerciais, as lojas de bens não essenciais como por exemplo vestuário e calçado; livrarias; "ilhas" onde se vende toda a espécie de produtos; cinemas, teatros, casas de espectáculos. não sei se as de telecomunicações estarão encerradas(?)
oficinas de automóveis(?) também não sei...
Entretanto: fronteiras abertas malta a desembarcar nos aeroportos e no portos sem teste válido? sem quarentena? venha de onde vier?
Professores, auxiliares de educação e pessoal administrativo das escolas sem teste, sem vacina?
Então e para que se perceba: agora com MAIS DE 100 MORTOS E MAIS 10.000 "FERIDOS" em média por dia, o senhor primeiro ministro vem anunciar, com pompa e circunstância, "FECHAR MENOS" e por menos tempo que em Março/Abril quando o total diário dos feridos pouco passava da centena e não morriam mais que vinte pessoas em média por dia.
E, sempre contrariando especialistas, epidemiologistas, médicos e até matemáticos dedicados ao
estudo da "coisa", só o senhor primeiro ministro parece esperar obter resultados em duas semanas (anunciadas para já) quando pelo menos seis a oito semanas é o período mínimo para recuar para os 3.000 "feridos" diários do início da crise "natalícia".
Para não falar já nos dois domingos eleitorais que devem ser "pacíficos" pois o nível de abstenção deve bater todos os recordes... mais por culpa dos candidatos do que do corona (digo eu!).
Eu posso estar muito errado mas, sinceramente, o governo conseguiu descredibilizar o "estado de emergência" e o que em Março foi percebido realmente como um período de excepção começa a ser uma coisa corriqueira.... talvez esteja a exagerar mas só um "ratito"!
Perceberam?
Eu não!
Mas, vou continuar a fazer o que fiz até agora que é o que acho que ainda resulta melhor - continuar a andar na defensiva, pois se diminuir o risco e me defender também estou a defender os outros.
A vida não tem preço (como disse o senhor primeiro ministro) mas a economia tem! E muito alto! Tão alto que os modelos económicos e os socias, quando se encontram, é uma "guerra pegada!"
Não é senhor primeiro ministro?

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Espécie de carta aberta de alguém que não fica muito bem visto.

 

Caros Terráqueos,
Sei que estão fartos de mim e desejosos que eu faleça.
Pois muito bem! Já falta pouco e estou já a antecipar a vossa incontida alegria nas doze badaladas de amanhã, vê-los saltar para cima de uma cadeira ou de um sofá, flute a borbulhar na mão, a notita amarfanhada na outra, e as doze passas ritmadamente engolidas um grande chinfrim com pedidos ao novo que nasce e um adeus muito aliviado a mim que me fino. Mas, afinal não é sempre assim?
Conhecem alguém que se despeça de um ano com pena?
É capaz de haver alguns, mas muito poucos, porque vocês terráqueos, além de mal agradecidos, sois ambiciosos e hipócritas. E, sempre uns esperançoso do caraças.
Por muito bom que eu pudesse ter sido, quando chegasse a meia noite de amanhã, vocês terráqueos saltariam à mesma de contentamento e a passagem de testemunho sempre teria a carga de alívio como se não tivesse prestado para nada?
Embora tivesse começado no meu antecessor, já sei que vou ser eu que vou ficar, nas vossas pobres cabeças, como o vilão por ter interrompido as vossas egoístas e rotineiras vidinhas, apenas mês e meio após o meu início. Paciência! Também não estou aqui para lhes pedir desculpa.
E, depois, não andaram logo tantos a dizer, "Estamos todos no mesmo barco"; "Vamos todos ficar bem" e outras palermices no género, não sei se irritantes optimistas, inocentes ingénuos ou simplesmente parvos e que agora devem estar entre os que mais saltam de satisfação com a minha morte?!
A vida é mesmo assim; tratem de descobrir as coisas boas.
A vacina já a têm e lembrem-se que ainda foi no meu tempo.
Muitos de vós até exultaram com o teletrabalho e poderem desempenhar funções no vosso acolhedor pijama e com o "escritório" a dois ou três metros do vosso quarto, sem terem de suportar o olhar do chefe por cima do ombro nem aquela rotina estúpida do cigarrinho lá fora. à porta da empresa ou a mijinha mais demorada no WC apenas porque já estavam fartos do dia.
Não me vou por aqui a enunciar todas as novidades mas foi giro vê-los com as bocas tapadas - para muitos foi profilático - e a acotovelarem-se constantemente - nunca percebi porquê se depois inventaram a tal etiqueta respiratória de tossir e espirrar para a zona perto do cotovelo - mas também foi muito interessante o cuidado com a higiene das mãos e foi um excelente negócio para determinadas empresas.
E, então para as compras online e as entregas porta-a-porta? Nem falo!
Agora não se esqueçam de se por aos abraços e aos beijinhos quando eu falecer e nascer o outro! Depois queixem-se de que se contagiaram e o culpado é o dois mil e vinte e um.
Bem, para não pensarem que me vou sem festa, arranjei-lhes para o fim mais uma depressãozita. A Bella! Beleza de frio e chuva. que começará em força só após a minha morte... ao menos alguém que a chore! Ah! E, mantenham-se espertos porque lhes deixo mutações do bicho, para se recordarem de mim por um pouco mais tempo.
Gostei de ter estado convosco e sejam felizes,
Despeço-me com uma cotovelada.

Dois Mil e Vinte