quarta-feira, 2 de abril de 2014

TRAIÇÕES DA MEMÓRIA I - FALTAM 24 DIAS

1 DE ABRIL DE 1974

Segunda-feira. Um dia normal de trabalho. 
Depois do tal fim de semana do jogo que o Sporting perdeu contra o Benfica por 5 a 3, para o campeonato em Alvalade e que contou com a presença de Marcelo Caetano e do Ministro da Educação, Veiga Simão. 
Foi a última aparição pública do Chefe do Governo até ao 25 de Abril. 
O Sporting viria a ser campeão, no último domingo de Maio.
No final dessa semana a 6, ainda o Festival Eurovisão da Canção, em Brighton, Inglaterra. 
Portugal com a canção que acabaria por ficar na História. 
'E DEPOIS DO ADEUS'.
Poema de José Niza e música de José Calvário. Intérprete: Paulo de Carvalho.

Segunda feira. Um dia normal de trabalho.
Era operador no Centro Mecanográfico da Câmara Municipal de Lisboa. 
Rés do chão esquerdo e parte do primeiro andar do 46 da rua Alexandre Herculano, na esquina com a Castilho e que albergava, também, a Direcção dos Serviços de Urbanização e a Central de Trânsito, 'Gertrude', o equipamento electrónico que coordenava toda a sinalética luminosa da cidade.
Em Outubro de 73, acabara de cumprir 42 meses de serviço militar. 
Em 18 de Novembro festejara os meus 25 anos e no dia seguinte entrara, pela primeira vez, no edifício que seria o meu local de trabalho durante quase onze anos.
Mas, na altura, apenas queria muito este primeiro emprego. 
Procurava um apartamento para morar com a família.
Já tinha um casamento feliz, de 4 anos. 
E o Ricardo. O nosso primeiro filho, de 3 anos.
Tempos bem diferentes dos de hoje.
  
Havia uma certa tensão política que a 'primavera marcelista' já não disfarçava.
A revolta das Caldas do 16 de Março e a prisão do capitão Monge e de outros oficiais ainda estava quente na opinião pública; os focos de instabilidade nas forças armadas eram já evidentes com o manifesto do Movimento dos Capitães; as notícias que viajavam das Colónias; o livro do general Spínola - Portugal e o Futuro; os debates, nos últimos tempos cada vez mais acesos, nas intervenções dos deputados da designada ala liberal, Francisco Sá Carneiro, Miller Guerra, Magalhães Mota e Pinto Balsemão, fundador e primeiro director do semanário de referência Expresso para a oposição; ainda na comunicação social, os vespertinos Diário de Lisboa da família Ruella Ramos e o República de Raul Rego, desde sempre ligado à oposição republicana e democrática e que viria a ser co-fundador do Partido Socialista.

Nos locais de trabalho, nos cafés, mesmo nos transportes públicos falava-se em segredo, à 'boca pequena'; mas nos organismos do Estado, o cuidado era redobrado. Nunca se sabia quem estava ao nosso lado a escutar conversas ou até mesmo a participar nelas. A PIDE que passara a DGS sem deixar de ser polícia política; como a censura passara a Exame Prévio sem deixar de ter lápis azul e coronéis; e a União Nacional que passara a Acção Nacional popular sem deixar de ser partido único, eram os bastiões de um regime que andava de 'orelha arrebitada' porque era  cada vez mais claro que estaria por um fio...

Faltavam 24 dias.
Tempos bem diferentes dos de hoje.