terça-feira, 15 de março de 2022

É PROIBIDO MUDAR DE LADO(?) OU "O DIA MAIS LONGO" OU "AÍ ESTÃO ELES"...

NOTA "PREÂMBULAR"

O que decidi "escrevinhar" foi-me suscitado por dois livros que li há uns bons anos sobre o desembarque das tropas aliadas na Normandia e da sua caminhada vitoriosa até Berlim pondo fim à Segunda Grande Guerra.
O livro chama-se "O Dia Mais Longo" (The Longest Day, de Cornelius Ryan).
Um dia vi na montra da Livraria Bertrand que existia na avenida, uma promoção(?) onde ao lado da obra que já conhecia, um outro livro sobre a mesma matéria. "Aí estão Eles" ( em alemão "Sie Komen" de Paul Carell. Pelo nome que até me pareceu americano entrei e como qualquer interessado faz, questionei a senhora que gentilmente me avançou o livro e me disse que "é a história contada pelo outro lado, o alemão". Depois, veio a explicação adicional na sinopse e na contracapa. Paul Carell é pseudónimo do pós-guerra de Paul Karl Schmidt, jornalista, escritor e principal porta-voz de imprensa do Ministério das Relações Exteriores de Joachim von Ribbentrop, general alemão do gabinete de Hitler. Comprei o livro, claro!
Isto serve para dizer que nunca me contentei com uma única fonte histórica para avaliar o que há para dizer sobre a História e foi também por isso que me "fartei" de gastar dinheiro da minha mesada estudantil, em livros de HistóriA, já que a do Mattoso que nos perseguia desde o 3º ao 5º ano nos retratava sempre como uns heróis que ganhavam todas as guerras mesmo quando as perdíamos. E muito menos me contento quando a História em cima da hora tem muito pouco mais do que mostrar propaganda, a par é claro dos costumados cenários de destruição e de morte, comum em todas as guerras, que a irracionalidade e a selvajaria humanas não deixam espaço para menos.

Perguntarão: e o que é que isso tem a ver com o quê?
Resposta possível: Uma frase de Ernest Heminguay no "Adeus às Armas" que nasceu justamente da experiência do escritor na Primeira Guerra Mundial, onde serviu como motorista de ambulância e presenciou momentos intensos e uma frase que eu gosto especialmente de citar. " Mais importante do que conhecer o inimigo, é saber quem estará nas trincheiras, ao teu lado!"

Peço desculpa antecipadamente por este extenso preâmbulo mas a sua ligação com o que a seguir vou deixar fica reflectida nos títulos que escolhi, vai ser por fim entendida +por quem teve a coragem de me acompanhar até aqui e irá seguir o meu raciocínio, em frente...

1) É PROIBIDO MUDAR DE LADO? NÃO!
Claro que não! A Ucrânia perdeu grande parte, para não dizer a totalidade da sua independência quando (e enquanto) esteve integrada na URSS e todos os outros países que com a implosão da União Soviética pela mão de Gorbatchov - que Putin considera um repugnante traidor, louco e incapaz - e que espoletou toda a onda de países de Leste desde as repúblicas bálticas até aos países que estavam sob o "Pacto de Varsóvia", uma espécie de NATO sob o "punho de ferro" de Moscovo e "mão detrás do arbusto" do KGB ado qual Putin era um dos quadros.
O Pacto de Varsóvia caiu com menos estrondo mas caiu com a URSS e nem uma debilitada Confederação de Estados Independentes que Jeltsin quis formar e que apenas serviu para se mostrar numa olimpíadas chegou para salvar a débacle comunista.
Jeltsin foi o primeiro a renegar o comunismo a mudar de lado, implantando um capitalismo liberal mas a crise de que nunca foi capaz de sair, levou-o em revoltas e descrença para dar lugar, adivinhe-se, a Vladimir Putin (a 31 de Dezembro de 1999, a título interino) e depois de Dmitri Medvedev ter feito durante 4 anos o papel de presidente "marionete" com Putin a dirigir os cordelinhos como primeiro ministro, regressou ao poder de jure e de facto, apoiado pelo partido (mais uma vez único) chamado Rússia Unida e em 7 de Maio de 20112, até hoje!
Pois o que se passou durante este período?
Putin nunca escondeu (nem sequer do ocidente) o seu sonho de uma Grande Rússia e assim entramos no...

2) O DIA MAIS LONGO!
Neste caso os anos passaram e não foram poucos.
9 de Agosto de 1999 é o dia em que Putin é entronizado primeiro ministro por um presidente Jeltsin, fragilizado pelo álcool e pelo coração. e ainda a pagar uma guerra Tchetchena que representara dois anos antes numa das maiores derrotas para o exército russo às mãos de rebeldes independentistas que reconquistaram num banho de sangue a capital Grozni.
Mas Putin não dava por barato quando se metia a peito num empreendimento e se a segunda guerra Tchetchena custou entre 160.000 a 250,000 mortos, paciência, são os custos de "libertar" o país e colocá-lo na esfera da Federação russa com um "fantasma" de Kanzam, o filho do próprio ditador como garante de vassalagem.
Mas, não ficou por aqui, o novo "czar". No Verão de 2008, dirigindo o olhar para a intermitente Georgia, envolve-se numa disputa pela Ossétia do Sul mas na verdade o que estava em causa era a própria república georgeana que estava a querer juntar-se à NATO que assediava os países na "linha da frente", a última fronteira com a Federação Russa. Dez anos durou a guerra na Ossétia do Sul, entretanto nascia uma "ilha" pelo meio, igualmente orientada por Putin, a Moldávia, antiga república soviética para servir de tampão entre uma Roménia já ocidentalizada e em vias de aderir à União Europeia e a própria Geórgia, agora totalmente nas mãos de Putin.
A 18 de Março de 2013 a anexação da Crimeia e da cidade de Sevastopol à Federação Russa é um processo de incorporação da República da Crimeia — reivindicada pela Ucrânia — e da cidade de Sevastopol como subdivisões da Federação Russa. Com origem na revolução ucraniana iniciada no final de 2013 culminou com a destituição de Viktor Yanukovych, o que para o governo russo foi um golpe de estado. Depois disso, surgiu um conflito no sudeste da Ucrânia, de maioria russa, por parte da população e de governos opostos aos eventos ocorridos em Kiev, que reivindicavam o estreitamento de seus vínculos (ou mesmo a unificação) com a Rússia.
As regiões que declararam unilateralmente a independência da Ucrânia foram unidas como uma única nação depois e pediram a anexação à Rússia de acordo com um referendo propositadamente elaborado para o efeito. A Rússia deferiu o pedido quase imediatamente através da assinatura de um tratado de adoção com uma nação recém-formada. Os acessos, no entanto, foram ratificados separadamente: um para a Crimeia como uma república e outro para Sevastopol como cidade federal, resultando na criação de duas novas subdivisões federais da Rússia. 
Para Putin, a Bielorrússia seria sempre um caso à parte e para que não houvesse tentações do Ocidente sobre esse grande estado, Putin tratou pessoalmente do caso e em Maio de 2016 fez instalar em Minsk, a lindíssima capital, Aleksandr Lukachenko, o seu ditador aliado. que logo se colocou á disposição para assinar acordos com Moscovo que não são mais do que submeter o país a uma aliança eterna. 

3) AÍ ESTÃO ELES!
E, enquanto Putin se "entretinha" a remontar o puzzle da era soviética, embora em moldes diferentes, os Estados Unidos e a União Europeia iam assistindo paulatinamente à sua ascensão, à avalanche vitoriosa das suas conquistas, não sem deixar de tentar assediar com o que tinham mais à mão, o gigante que ainda faltava na esfera da influência de Putin. A Ucrânia!
Estamos em 2015, quando Petro Porocshenko, empresário do chocolate e bilionário,
Quando sua vitória se tornou clara na noite do dia de eleição, em 25 de maio de 2014, Poroshenko anunciou como seu primeiro destino presidencial após o levante das Repúblicas Populares de Donetz e Luhansk por manifestantes pró-russos e também a manter as operações militares contra a insurgência: "As operações antiterroristas não podem durar dois ou três meses. Deveriam e irão durar apenas algumas horas." Na ocasião, comparou os manifestantes pró-russos aos piratas somalis e defendeu negociações com a Rússia desde que sob mediação internacional. Em resposta, o governo russo afirmou que não aceitaria um mediador internacional em suas relações com a Ucrânia. Como presidente-eleito, Poroshenko prometeu recuperar a Crimeia. Mas em Dezembro de 2018, Wolodmir Zelensky apresentou-se a eleições. Zelensky nasceu e cresceu em Kryvyi Rih, uma região localizada no sudeste da Ucrânia. Concluiu a graduação em direito pelo Instituto de Economia de Kryvyi Rih, mas não exerceu funções jurídicas. Ainda na juventude iniciou sua carreira como comediante e fundou o grupo Kvartal95, que produziu filmes, desenhos e programas de televisão como a série Servo do Povo, onde Zelensky faz o papel de presidente da Ucrânia. A série durou de 2015 a 2018 e foi extremamente popular. Zelensky apresentou uma plataforma de campanha sobretudo antisistema. Na segunda volta, derrotou Poroshenko, com 73% dos votos. Zelensky propôs reformas em diversas áreas, incluindo agrária, eleitoral, política e judicial. Entre as medidas promulgadas, extinguiu a imunidade dos membros do Conselho Supremo e introduziu a possibilidade de referendos. Elaborou legislação alegadamente para "desoligarquiar" o país e prometeu acabar com a Guerra Russo/Ucraniana e tentou dialogar com o presidente russo Vladimir Putin.
Mas, os sinais de que Zelensky desejava aderir à União europeia e que via com bons olhos a entrada da Nato veio colocar de novo, em cima da mesa, as ameaças de Putin que traçou desde sempre as "linhas vermelhas" que evitariam a continuidade das negociações para a paz.
Estados Unidos e União Europeia disseram "Nin" e perante a ameaça cada vez mais próxima, Putin decidiu avançar na sua última "campanha de conquista". 
E, agora, aí estão eles!
As pseudo manobras militares junto à fronteira russo-ucraniana e bielorrussa-ucraniana depressa se transformaram em invasão e com objectivos concretos. Unir os territórios das repúblicas de Luhansk e Donetz à Crimeia, por terra, através de Mariupol (logo no 1º dia) e a norte cercando Kiev através de Chernobyl, Brovary, Symi, Konotop, Khakirv (no 2º dia) para depois tentar a sul, o impoprtante porto de Odessa asfixiando assim todas as portas da Ucrânia com os mares Negro e de Azov e toda a fronteira com a Rússia sendo que do outro lado, a fronteira com a Bielorrússia é por si só já hostil. A única fronteira da Ucrânia ficaria a ser a Polónia e uns escassos quilómetros com o norte da Roménia.

Vladimir Putin não cederá! Qualquer cedência externa será a sua "morte política" quem sabe se não será também física, internamente e o autocrata não tem perfil para se submeter a tal fim.
As negociações têm sido apenas uma "manobra" para Putin ir atingindo os alvos, que lhe permitam ganhar vantagem no terreno, arrasar a economia ucraniana e provocar uma intervenção dos Estados Unidos/Nato, ainda que o peso das sanções e o seu endurecimento esteja a desgastar os seus "amigos" oligarcas cujo "grau de amizade" pode não ser suficiente.
De qualquer forma, a ameaça do ataque a Kiev e a mais que certa tentativa séria de neutralizar Odessa e ligar Mariupol à Crimeia, por terra, pode arrasar com a última resistência ucraniana. Zelensky apesar de toda a propaganda que emana das suas contínuas comunicações já não terá muitos mais argumentos e por isso tem renovado os apelos ao Ocidente para um apoio mais visível no terreno que até agora se tem resumido a receber os ucranianos em fuga e que lhes entra pelas fronteiras próximas e de um apenas simbólico reforço de forças Nato, nos países vizinhos.
Quanto às sanções que de inicio foram anunciadas com grande pompa e circunstância, estão agora a ser consideradas também com efeito "boomerang" pois até há pouco tempo, mesmo depois da invasão ter começado, ainda havia na Europa, membros da UE que torciam o nariz às medidas pelo efeito que tinham nas próprias economias, os avultados negócios russos, pouco se importando com a origem dos milhares de milhões de rublos, dólares e euros que entravam no principalmente no futebol, na indústria automóvel e no imobiliário.
A China, espera como só os orientais e, em especial os chineses têm fama de ter paciência para o saber fazer! nem contra nem a favor para manter a moeda de duas faces como dois valores iguais e no fim estarem bem posicionados para serem os únicos vencedores num mundo onde as principais economias não param de recuar desde a pandemia.
Vladimir Putin será, no contexto internacional actual, será sempre um proscrito numa guerra que se arrisca a ter apenas vencidos. 
Mesmo que terminasse amanhã, os efeitos colaterais já são devastadores. 
Cada dia (MAIS LONGO) que durar quando alguém disser (Aí estão eles) será aos chineses que se referirá (mais ainda do que até hoje) e depois, mesmo que se "quisesse mudar de lado" restará algum lado pelo qual valha a pena mudar?
Nada desculpará esta agressão "kamikaze" em que Putin nos meteu a todos, mas também devemos perceber que quem andou a dar corda ao avião, durante estes últimos dez anos, fomos nós a ocidente. Por não acreditarmos nele e somos todos gente de paz? Então somos mesmo incrédulos! Por não querermos estar com aborrecimentos com o homem do gás enquanto ele não mexesse no gás? Então somos maliciosamente hipócritas! Por acharmos que não fosse possível e que a Ucrânia iria manter-se democrática, europeizada pela união e armada pela NATO e Putin... NADA? Então somos perigosamente ingénuos!  


Termino este longo relato e peço desculpa por ter sido talvez demasiado redundante e exaustivo mas é a maneira que tive de dizer, de forma o mais completa possível, do conhecimento que tenho e da forma como vejo e de como se poderia ter antecipado uma solução negociada. sem passarmos por isto...